Sou Cristiane Freire, a gente combate às endemias desde 1998. Fui a primeira mulher do interior do Estado do Ceará a atuar como ACE e considero que a minha entrada nessa profissão foi um presente de Deus. Naquela época, os profissionais que combatiam as endemias eram os guardas da Superintendência de Campanhas de Saúde Pública (SUCAM) e a nomenclatura “agente de combate às endemias” ainda não existia.
Naquele dia 22 de abril, após receber a negativa de que não poderia trabalhar na fábrica porque eu precisava ter 25 anos de idade e eu tinha 23, sem enxergar uma saída, encostei minha bicicleta na praça principal da cidade, sentei na calçada e comecei a chorar. Nesse momento, um senhor cujo rosto não consigo lembrar chegou em uma bicicleta azul, vestindo camisa branca e calça jeans. Ele perguntou o que que eu tinha, eu expliquei a ele. Ele mandou enxugar as lágrimas e disse que estava havendo inscrição para guarda da SUCAM. E eu perguntei: “Eu, uma mulher, guarda da SUCAM?”. Ele disse que sim. Obedeci, fui, fiz a inscrição, fiz a prova e passei em segundo lugar no município de Tianguá.
A Primeira Mulher na SUCAM
Com isso, fui a primeira mulher a trabalhar como guarda da SUCAM no interior do Ceará. E começou o nosso primeiro dia de trabalho, a apresentação. Eu e mais 13 homens, todos ficaram surpresos: a primeira mulher do interior do Estado do Ceará a trabalhar como guarda da SUCAM. E com o tempo, no dia a dia, fomos nos adaptando e eles percebendo que, apesar de ser mulher, eu tinha condições de realizar as funções que os demais faziam.
A comunidade também estranhava o fato de uma mulher ser guarda da SUCAM. Acho que foi mais difícil a aceitação da comunidade do que dos colegas de trabalho. Nós trabalhamos por campanha, cobrindo áreas distantes. O carro-chefe era o combate à dengue, mas também tinha febre amarela, leishmaniose, doença de Chagas.
Desafios e Aventuras no Sertão
Em uma ocasião, fui com mais seis colegas trabalhar na localidade de Letreiro, zona rural do município de Tianguá, área do Sertão. Hoje dá para chegar de carro até lá, mas na época tínhamos que pegar um ônibus para descer a serra até a localidade do Saco, hoje distrito de Bela Vista. Era muito desafiante: descia de ônibus até o distrito de Bela Vista, de lá nós pegávamos a bicicleta e pedalávamos 10 km até o distrito de Arapá. Do distrito do Arapá a gente pegava o jumento, colocava todos os nossos equipamentos e íamos ao Letreiro, ao pé da serra. E lá nós subíamos a pé para poder realizar o trabalho.
Neste dia em Letreiro, terminamos a última casa às 17:30 e ainda precisávamos lavar todos os materiais. Resultado: perdemos a carona prevista. O jeito foi de jumento até o Arapá, onde devolvemos os animais. O caminhão que nos levaria até a Bela Vista já tinha passado e foram seis quilômetros a pé até a Bela Vista. Os atrasos foram se acumulando no trajeto. Chegando no distrito de Bela Vista, perdemos o último ônibus e ficamos às margens da BR. Pegamos uma carona num caminhão, mas chegando no meio da serra esse carro quebrou. Subimos uma parte a pé, pegamos novamente essa carona. Cheguei na minha residência às 10 horas da noite, e os demais colegas chegaram mais tarde.
Amor à Profissão e Luta Sindical
Apesar das dificuldades, acabei me apaixonando pela profissão. Todo dia é uma experiência nova. O ACE dentro da comunidade é um pouco médico, psicólogo, engenheiro, pedreiro. Como ACE, nós fazemos parte de todas as famílias de Tianguá e por isso necessitamos desenvolver nossa profissão com amor e dedicação.
Acabei abraçando a luta dos ACEs na criação de associações e sindicatos. Hoje faço parte da Diretoria da Associação dos Agentes de Endemias da Serra da Ibiapaba, da Federação dos ACS e ACEs do Estado do Ceará (FEDAACS), da Confederação Nacional dos Agentes Comunitários de Saúde e Endemias e do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Tianguá (SISMUT).
Gratidão ao Anjo Desconhecido
E imaginar que tudo isso iniciou com aquele senhor há 24 anos atrás. Ainda hoje procuro e penso, tenho a esperança de um dia encontrá-lo e poder dizer muito obrigado! O senhor foi um anjo na minha vida, a luz e o caminho que eu venho a trilhar por todos esses meus anos de profissão.